365 dias de Consciência Humana? Seria lindo
se não estivéssemos no Brasil. Esse tipo de “grito” por “consciência
humana” exatamente no Dia da Consciência Negra soa como um reforço
àquele discurso extremamente conservador segundo o qual “não existe
racismo no Brasil”
Por Rafael Patto, via Facebook
www.pragmatismopolitico.com.br/2013/11/consciencia-negra-humana.htmlhttp://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/11/consciencia-negra-humana.html
A página do cantor e compositor Ivan Lins publicou hoje, 20/11, uma foto com a seguinte mensagem: “Por 365 dias de consciência humana”.
Lindo isso, se não estivéssemos no Brasil. Esse tipo de “grito” por
“consciência humana” exatamente no dia em que celebramos o Dia da Consciência Negra
me soa como um reforço àquele discurso extremamente conservador – do
qual Ali Kamel e Demétrio Magnoli são adeptos – segundo o qual “não
existe racismo no Brasil”. Logo, não seriam necessárias essas
manifestações por afirmação identitária, como as que são promovidas pelo
Movimento Negro e que, aos poucos, vão sendo incorporadas como parte
dos esforços do poder público em reparar os erros e crimes que foram e
são cometidos contra a parcela negra da nossa população.
Quase QUATRO QUINTOS da nossa História (é pouco isso?) foram vividos
sob o regime escravocrata. A escravidão não foi praticada
indiscriminadamente contra todos os seres humanos que aqui viviam até
1888. Não é possível que hoje queiramos fingir para nós mesmos que as
consequências da escravidão sejam ainda sentidas, sem qualquer
distinção, por brancos e negros.
Falar que o Dia da Consciência Negra deveria ser substituído por um
dia da “consciência humana” no nosso país seria como sugerir que todo
esse passado de violência atroz contra os negros seja esquecido.
Combinamos assim: “faz de conta que ninguém foi tratado diferentemente
em razão da cor de sua pele e, por isso, hoje somos todos iguais.
Humanos, com as mesmas oportunidades. Né?” Isso é o cúmulo da falta de
consciência histórica!
Se os seres humanos não tivessem inventado um sistema de dominação
que submete outros seres humanos a um poder instituído com base na
marginalização da maioria em razão de traços como origem geográfica e
cor da pele, aí sim, seria lindo celebrar a humanidade como uma coisa
harmônica.
Mas, enquanto persistirem os efeitos dessas experiências de
subjugação, exploração e aculturação que se abatem sobre aqueles a quem
foi negado até o direito de serem reconhecidos e respeitados como seres
humanos, temos a obrigação moral de reconhecer que infelizmente, no
estágio evolutivo em que nos encontramos hoje, muito pouco há para se
celebrar em razão do fato de sermos “todos seres humanos”, mas há muito o
que se lembrar a respeito de tudo o que já se fez neste país contra
seres humanos que, por causa da cor de sua pele, foram subcategorizados
como uma raça inferior não pertencente à espécie humana.
Não entendo por que ainda há pessoas que preferem, depois de tudo o que passou, fingir agora que sempre fomos todos bons amigos.
Quer dizer, até entendo sim…